Nos últimos tempos, muitas pessoas adentraram o mundo do romhacking, ports, recompilações e traduções graças às facilidades trazidas pela IA. Uma barreira técnica foi quebrada e o que antes era muito difícil se tornou mais fácil de ser explorado por pessoas que não passaram por um longo processo de aprendizado.
Com isso, a comunidade ficou mais movimentada e mais pessoas se interessaram por este universo, que antes tinha uma barreira técnica de entrada muito grande.
Dito isto, gostaria de fazer um apelo a vocês. Isso não é uma crítica à IA. É apenas um apelo. Ninguém tem controle sobre o que o outro faz e no fim das contas você faz o que quiser. Por isso, reforço que é apenas um apelo, um pedido, caso você goste disso que está fazendo.
O pedido é: tenha comprometimento com a qualidade.
Está tudo bem se você for usar IA para fazer debug, para traduzir textos, para gerar imagens, para escrever ferramentas de extração. Use IA onde você quiser. Mas, por favor, tenha critérios altos de qualidade quanto ao produto final.
É de se espantar ver gente lançando em 2026 jogo traduzido para Game Boy e Nintendinho sem acentuação, sendo que o conhecimento técnico para acentuar já era dominado lá no início dos anos 2000.
Se hoje temos a inteligência artificial para acelerar o processo de execução, lembre-se de que existe uma comunidade de décadas, com conhecimento acumulado, com a qual você pode interagir para tirar dúvidas, receber ajuda e superar desafios que não conseguiu superar sozinho, mesmo com a IA.
Se você não conseguiu colocar acentos no seu jogo de Nintendinho, para que lançar? Venha conversar com a comunidade antes e pedir ajuda. Ou então se vire sozinho até conseguir resolver. Porque é nisso que está a graça de fazer esse tipo de trabalho. A graça é se desafiar e levar tua capacidade de resolver problemas para um próximo nível.
Qual o sentido de ficar lançando projeto porcaria? Vai ter apenas meia dúzia de gatos pingados te agradecendo. Se você acha que lançar por lançar faz bem para o ego, digo que não faz.
A graça do negócio é ver o trabalho pronto com qualidade, saber que você conseguiu aprender coisas novas, superou desafios que encontrou no meio do caminho e conseguiu criar algo de qualidade.
Não precisa nem falar que você utilizou IA. Não estou aqui pistolando igual membros da comunidade de desenvolvedores de Mega Drive pistolaram. Cada um faz o que quer e o que importa é o produto final.
E o meu apelo é justamente para você ter mais zelo com a qualidade produto final, independentemente dos meios que utilizou para chegar lá.
Não importa se o seu código está otimizado ou não. Não importa se está tudo comentado e organizado ou não. Não importa qual IDE você utilizou. Não importa se pediu ajuda ao ChatGPT ou deixou o Codex/Claude Code trabalhar na maior parte do projeto. Mas tenha zelo pela qualidade do projeto final. Queira ver algo pronto e bom no fim das contas.
Novamente, é um absurdo, em pleno 2026, joguinho de Game Boy sendo traduzido sem acentuação. Em 2001 já tinha gente que se virava para conseguir acentuar, mesmo sem ter à disposição 5% das ferramentas, recursos e conhecimento que temos disponíveis hoje. Em 2005 já tinha gente que depurava rotinas de compressão de dados e com isso conseguia editar gráficos que estão comprimidos na rom. Qual o problema de você demorar um pouco mais para lançar mas tentar superar essa barreira técnica? Que hoje pode ser superada 20x mais rápido graças a própria IA?
O legal da IA é que ela permite fazer coisas ainda mais difíceis e complexas do que tínhamos tempo e disponibilidade para fazer antes dela. Não para fazer com velocidade e com qualidade lixo algo que já é possível fazer há décadas.
Novamente, isso é um apelo. É um pedido para que você, marinheiro de primeira viagem no romhacking, que graças a IA viu que conseguiria fazer algum projeto, repense um pouco e possa aproveitar ainda melhor esse hobby.
Não tenho o direito de exigir nada. E, mais uma vez, isso não é uma crítica à IA. Eu adoro IA e uso cada vez mais em tudo que puder para acelerar meu trabalho. Mas o importante é que o trabalho final tenha cada vez mais qualidade.

